Equipe Guaranis de Lacinho |
Há alguns meses decidi que queria uma experiência diferente em corridas de aventura. Há três anos participando destas competições, sempre contei com o apoio e incentivo da parte “forte” das corridas. Sempre os homens e, principalmente meu marido Marco, estavam lá para me ajudar e me empurrar pra frente. Mas eu queria algo mais. Foi então que decidi que correr com uma equipe de mulheres. E mais: eu iria navegar. Claro que não saí da equipe, apenas estou curtindo coisas novas!
Objetivo definido, faltava encontrar alguém com coragem de aceitar o convite de correr só em mulheres - o que já não é nada fácil - e com alguém que nunca navegou - o que é mais difícil ainda já que, por comodidade, geralmente deixamos a navegação com os homens. Convidei minha companheira de equipe, Gesiane, e as amigas Sandra (Uirapuru) e Adriana (Goiabada Power). Elas toparam. Mas como a Sandra tem medo de água, o primeiro desafio ficou mesmo só para mim e para a Gesi. (A Dri nem ficou sabendo que estávamos analisando a possibilidade de corrermos a Chauás Race – Riviera de São Lourenço (SP), que teria um trecho de natação. Como a Sandra já tinha decidido que não iria, o time ficaria incompleto e por isso nem avisamos a Dri.). Apesar de decidirmos fazer provas curtas, que são em duplas, a idéia original era corrermos as 4 juntas.
Tudo preparado para a prova, nos aprontamos para a largada às 9hs da manhã de sábado, no Shopping da Riviera. No pórtico, além de nós, que corremos como Guaranis de Lacinho (meigo, não?!?), estavam também Tony e Fidel (Guaranis), que decidiram correr na quinta-feira. Além de ter a prova como treino, eles tinham decido ser nossos anjos-da-guarda. Claro que a Gesi e eu não sabíamos disso. O Tony, como marido super-protetor, estava preocupado com a Gesi, que como a Sandra, não sabe nadar. (Óbvio que o colete era obrigatório. Mas vai falar pra esses homens que é seguro e que não haveria problemas). O Marco, que também é super-protetor, ficou na torcida.
Soa a buzina e partimos de bicicleta, em comboio guiado por uma moto de uma associação local. Iniciamos o pedal, que teria uns 15 km, com os Guaranis na nossa cola. Eu gritava: Podem ir! Vão embora! E o Tony grudado na Gesi. Vão!!! Não se preocupem!!! E o Tony grudado. Saímos da cidade e começamos o pedal pela praia. Seriam pouco mais de 9 km de praia, com direito a atravessar um rio com a bike nas costas.
Já na areia, o Tony avisa que iriam com a gente até o trecho da natação, que para nossa sorte seria logo depois da bike. (Já pensou se a natação fosse no final da prova? Eles iriam nos acompanhar a prova toda!!!). Pedalamos os quatro, tentando pegar vácuo. Pedalamos num ritmo razoavelmente bom. Afinal, a Gesi está voltando aos treinos agora e eu estou com um tipo de tendinite na perna direita.
Deixamos as bikes no gramado do Hotel Morada do Sol e iniciamos um treking pela areia da praia e depois margeando o rio. Seguimos num trote, mas passando algumas equipes, principalmente masculinas. Era engraçado ver a cara das equipes quando eram passadas por duas mulheres. Alguns que estavam andando, começavam a correr. Acho que acabamos motivando alguns deles. Claro, que os nossos meninos estavam na nossa cola.
Chegamos ao PC da natação. Caímos na água e começamos a atravessar o rio, que era negro e com aquele cheirinho desagradável de mangue. Falei pra Gesi ir nadando de costas e ela foi. Nem parecia que na semana anterior quase também tinha desistido da prova por causa da natação. Ela foi embora e eu fiquei pra trás, naquela água mal cheirosa. O Tony, que estava com um colete para um peso abaixo do dele, saiu por último. Como vimos que estavam bem, a Gesi e eu seguimos pela trilha que levaria à costeira.
Lama por todos os lados, até chegarmos às pedras. Tentamos acompanhar o ritmo de uma dupla feminina, nossas concorrentes, mas não conseguimos. A Gesi escorregou algumas vezes pelas pedras, o que fez com que ficasse com medo de se machucar. Diminuímos o ritmo e as equipes começaram a se afastar. Também caí algumas vezes, mas não tivemos nenhuma lesão séria. Apenas alguns arranhões e roxos de recordação. No caminho, um paredão rochoso. Senti saudade do meu equipamento de vertical. Para nossa sorte, ainda existem muitos cavalheiros nesse mundo. Recebemos ajuda de algumas duplas. Segura daqui, empurra dali e pronto. Conseguimos ultrapassar o paredão.
Os três quilômetros de costeira pareciam intermináveis. A maré estava subindo e o medo de ficarmos ilhadas batendo. Em alguns momentos precisávamos esperar a água baixar para que conseguíssemos passar. Num desses momentos, passei correndo, mas não deu tempo da Gesi passar. As ondas vieram. Fiquei assustada. Mas a Gesi conseguiu se equilibrar na ponta de uma pedra e sair logo em seguida. Na seqüência, passamos juntas rapidamente por outra pedra, tentando fugir da água, mas o lodo não deixou que ficássemos em pé. Escorregamos e nos arrastamos, a Gesi de bumbum e eu de quatro, pedra acima. Estava tudo muito liso. No caminho ainda conversamos um pouco com uma dupla mista, cujo rapaz da equipe ficava brincando de se maquear com o espelho do kit obrigatório (não vou falar quem era pra não comprometer a pessoa!!! rs).
Uma bobeada minha, na tentativa de pegar uma trilha paralela à costeira, fez com que perdêssemos alguns minutos. De volta às pedras, terminamos a costeira com a notícia de que uma dupla feminina havia passado há muito tempo naquele trecho. Bola pra frente!
Começamos a correr pela praia até a passarela. Aproveitamos para comer enquanto corríamos. Atravessamos a passarela, já com as pernas moídas pelas pedras, e começamos a revesar entre troque e caminhada rápida. Acho que conseguimos passar umas duplas, que também estavam cansadas. No caminho para o remo, recebemos um incentivo do Jeff, nosso amigo de treino na Selva Aventura. Foi muito bom. O astral subiu e continuamos nosso treking até os ducks.
O remo seria outro grande desafio da prova. Isto porque, nenhuma das duas está acostumada com o leme. Tínhamos treinado apenas duas vezes na raia da USP, que não tem correnteza e não serve de parâmetro para a prova.
Foram 8 km de remo sofrido. A essa altura a maré estava enchendo e a correnteza contra. A Gesi repetia a todo momento: “Essa história que a gente aprende na escola que todo rio desemboca no mar é a maior mentira!”. Uma dupla chegou a perguntar se achávamos que já tinha passado a metade do remo. Mas ainda estávamos no começo. Pensei: “Nossa, estamos mal, mas esses aí devem estar pior que a gente. Acabamos de entrar na água e já acham que está na metade?”. Para nossa sorte, a dupla feminina que estávamos competindo nunca tinha remado. Nós tínhamos, pelo menos, duas aulas no currículo.
Essas duas aulas foram o que decidiram nossa posição. Passamos a dupla feminina e, por incrível que pareça, algumas duplas masculinas. Claro que algumas delas estavam com o duck murcho. Mas passamos... hehehe.
Para nossa surpresa, os Guaranis surgem no rio. O Tony, que quebrou a clavícula recentemente, estava remando pouco. Mas mesmo assim, eles nos passaram. Ainda no caminho, um barquinho a motor passou por nós e um dos tripulantes perguntou se queríamos ser rebocadas. A Gesi vira e fala: “Ah! Eu queria sim!!!”. E eu respondo: “Não quer, não! Muito obrigada! Vamos remando.” Estávamos esgotadas sim. Mas íamos até o fim.
E fomos. Saímos do rio com duas ótimas notícias. A primeira é que estávamos em primeiro na categoria e outra que o PC Virtual, que determinaria um corte na prova, havia sido cancelado.
Saímos bem lentas do remo, com as pernas travadas. Alguns minutos depois, começamos a correr para tentarmos nos distanciar o máximo possível da dupla feminina que vinha atrás. Chegamos de volta ao hotel, onde estavam as bikes. Os Guaranis estavam saindo e nós chegando, quando o cara do PC avisa que a câmara de um dos meus pneus havia explodido com o calor. A câmara literalmente explodiu. Para ter uma idéia, nenhum remendo poderia consertar. Ainda bem que eu tinha uma câmara reserva e ainda bem que os nossos anjos-da-guarda estavam lá. Eles trocaram a câmara e começamos a pedalar.
Nosso ritmo estava muito abaixo do deles. Eles seguiram na frente e voltamos a ser Guaranis de Lacinho. A Gesi estava muito cansada e para piorar a maré cheia só permitia que pedalássemos na areia fofa. Pedala, pedala, pedala. Algumas equipes masculinas nos passaram. Mas cada vez que uma equipe se aproximava, eu pensava que era feminina. “Vamos Gê! Tá acabando! Vamos! Tá vindo equipe aí! Acho que são elas!!!” Mas a Gesi estava tão cansada, que nem me dava bola. Mas eu também não podia ajudar. Não tinha força para rebocá-la.
E fomos pedalando nessa agonia de perdermos ou não a primeira colocação. Mas o dia era nosso! Chegamos e Vencemos! Vencemos nosso desafio de corrermos como dupla feminina, sendo recompensadas com o troféu da primeira colocação. Na chegada, fomos recepcionadas pelos nossos companheiros, maridos, amigos e, no caso dela, pela filhinha. Foi uma festa só.
Nosso troféu agora representa a nossa capacidade de competirmos tanto com homens quanto com mulheres. Representa o companheirismo dos corredores de aventura; a humildade de aceitar a ajuda de um companheiro ou de um estranho; e, principalmente, a alegria de passar por todos os perrengues na companhia de amigos, amigas, seja lá quem for... Apenas amigos.
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