Chauás Itanhaém 2006 - esta Corrida de Aventura entrou para a história!
A corrida de aventura mais perrengue do ano começou às 14h de sábado, 25 de março, na praça central de Itanhaém. Largaram juntas as equipes para o Chauás Summer Night (75 km) na formação duplas (27 equipes) e para a Expedição Chauás (110 km) na formação quartetos (14 equipes).
A Equipe Voitto na formação dupla masculina, atletas Denis Luque e Zé Luiz, largou para o Chauás Summer Night com previsão de 12h a 15h de prova, com caixa de reabastecimento no PC2 no alto da Serra do Mar, já em Parelheiros. A caixa de reabastecimento foi levada ao local pela organização da prova, e nela havia macarrão, batatas, água, refrigerante, gatorade, maltodextrina, bananas, azeitonas, pilhas, coletes salva-vidas.
No briefing da prova, as modalidades entre os PCs:
- Largada até o PC1: bike
- PC1 ao PC2: trekking
- PC2 ao PC3: trekking
- PC3 ao PC4: duck (remando)
- PC4 a Chegada: bike
Largada na praça central de Itanhaém, na frente da igreja.
O PC1 localizava-se a 3 km do pé da serra, distante 13 km do centro da cidade.
O PC2 era o reabastecimento no alto da serra em Parelheiros.
PC3 estava uns 6 km deopis da descida da serra, na ponta sobre o rio.
PC4 junto com o PC1, em outra ponte sobre o rio.
Chegada na praça central de Itanhaém, na frente da igreja.
Preparados para a largada, optamos por pneus mais finos nas bikes, uma vez que os trechos de ida e volta de bike eram asfaltados, assim poderíamos adquirir maior velocidade. Soa a buzina do Lucas e a chuva começa junto com a largada. Damos aquela olhadinha para a serra, imaginando o que nos esperaria...
Pedalamos até o PC1 em menos de 30min, transição rápida e saímos correndo pela estrada em direção à trilha que nos levaria à subida da serra. Minha lanterna de cabeça já começa a dar pau, acende sozinha, pisca, muda de humor, só faltava apitar... tirei as pilhas, ainda era dia. Iniciamos a subida da serra sem grandes problemas de navegação, terreno íngerme e vegetação densa, andamos juntamente com outras 2 equipes até chegar no rio. Ainda chovia fraco, intermitente. O rio agora era o único caminho, muitas pedras e água pelos joelhos e coxas, alguns trechos mais profundos. Escureceu... coloquei as pilhas na lanterna e torci para ela funcionar... mmmmm... putz, ligou!! Tudo bem que ela acendia do jeito que queria, mudava de LED para halógena e vice-versa na hora que queria, na intensidade que queria e o botão liga/desliga já não servia pra nada. Pelo menos eu tinha luz! Chegamos à bifurcação que nos levaria à cachoeira, depois escalamos pela esquerda dela e continuamos rio acima. Outra bifurcação e já procurávamos pela trilha que nos levaria morro acima. Nesta altura do campeonato estávamos Voitto e Irmãos Metrilhas juntos procurando pela trilha de saída. Esta busca nos custou horas, íamos e voltávamos até a bifurcação anterior contando passos, contando o tempo, estimando a velocidade, observando a vegetação e marcações de facão. Encontramos uma saída e decidimos que seria a única possibilidade, subimos, a chuva apertou e atrapalhou mais a navegação. Seguimos pra cima, sem muita certeza de onde estávamos no mapa, mas coincidindo algumas referências, o que nos fez decidir seguir adiante. às 22h de sábado passamos ao lado de um forno de queima de carvão, continuamos, primeira bifurcação à esquerda, segunda à direita e... a tempestade tropical chegou pra valer!! A forte chuva e o vento fechava as trilhas, a água corria pelas trilhas como se fossem rios, as ravinas tornaram-se perigosas. O que seria nosso caminho pela ravina, tornou-se intransitável. Junto com a chuva e o vento veio o frio, eram 23h30 de sábado, não encontrávamos a próxima bifurcação (a trilha acabava!) e decidimos fazer uso do cobertor de emergência... estávamos congelando! Molhados e terminando o último naco de comida, sem conseguir prosseguir com segurança e devido às condições do tempo, mudamos o foco de competição para sobrevivência. Descartamos a opção de voltar ao PC1, pois imaginamos que com a chuva o volume de água do rio poderia ter aumentado perigosamente de forma a por em risco as nossas vidas. O objetivo agora era sobreviver!
Voltamos para o forno em 40min, encontramos outras equipes e cortamos em várias partes um grande saco plástico preto que serviu de "poncho" impermeável para quase todos. Entramos no forno, mais de meia-noite, espantamos os morcegos. Foram chegando mais e mais equipes, todas procurando um lugar no forno para se abrigar da tempestade tropical que castigava a região. Os morcegos resolveram voltar para nos fazer companhia. A visão que tive daquele local foi única... mais de 20 pessoas sentadas lado a lado com a cabeça nos joelhos dentro daquele forno de 3,5m de diâmetro, 2m de altura, de piso irregular, do teto de tijolos pingava água sobre nossas cabeças, da única porta estreita ouvíamos o barulho da selva em tempestade e água correndo por todos os lados. Tremíamos de frio em revezamento. Vi alí em todos, sem excessão, o espírito guerreiro de cada um, bravos guerreiros! Alguns ainda tentaram buscar a trilha no meio da tempestade, mas voltaram depois de algum tempo sem sucesso. Esperamos amanhecer.
Recomeçamos a andar às 6h30 de domingo em busca da trilha certa. Buscamos trilhas e ravinas, vara-mato no azimute da bússola, a luz do dia ajudou a orientação pelas montanhas. Vimos que estávamos... no caminho errado! Já era pelo menos uma certeza. A bússola indicava que nos afastávamos do azimute objetivo. Voltamos e tentamos novos rumos. Encontramos uma equipe da expedição (quarteto) e resolvemos seguir juntos. Neste momento havia pelo moesno 30 pessoas juntas! Chegamos a uma bifurcação já conhecida que, à noite na chuva, a esquerda parecia fechar, mas à luz do dia pudemos enxergar sua continuidade. Seguimos por essa trilha, cruzamos riachos, vimos pegadas de onça. Batendo o azimute pude verificar que íamos a oeste... e consegui me localizar no mapa. Voltamos rapidamente para leste até a bifurcação anterior, nos afastando do grupo maior e encontramos seguindo à direita a tão procurada bifurcação que nos levaria à trilha principal! Cruzamos o rio Embu-guaçu e nos deparamos com outras equipes perdidas, mais uma trilha difícil de encontrar. Havia quartetos e duplas. Não encontramos a trilha e resolvemos seguir pelo rio Embu-guaçu até cruzar com outra trilha, excelente, porém demorado, pois tivemos que descer cacheira abaixo e andar no rio de pedras com água pela cintura. Na trilha principal pudemos imprimir um bom ritmo e FINALMENTE chegamos ao tão esperado PC2 às 11h40, fomos a 7ª dupla a chegar lá. E lá estava nossa linda caixa de reabastecimento...
Macarrão!!! Banana!!! Civilização!!! A motivação voltou! Meio-dia começamos a descida da serra. Cruzamos o marco de divisa de município São Paulo-Itanhaém e seguimos bem pela trilha. Próximo à cota 320m tivemos dificuldade em achar a trilha que fazia a descida final até o pé da serra, gastamos umas 2h tentando achar a trilha, havia outras equipes perdidas também no mesmo ponto e o mapa não ajudava muito. Esquerda pra lá e direita pra cá, encontramos a trilha juntamente com outras 4 equipes e iniciamos a descida, muito íngrime, muitos trechos de "ski-bunda", escorregões e tombos. Os joelhos já estavam judiados mas a descida não dava trégua. Chegamos ao pé da serra às 17h de domingo, seguimos pelo trecho de estrada de terra deixando 2 equipespara trás enquanto a "Arroz, Feijão e Fé II" seguiu à frente abrindo alguns minutos. Paramos para tirar a areia do tênis, mexer os dedos dos pés na água do rio, refrescar as bolhas e tomar fôlego para mais uns 6km até o PC3. Depois de uns 3km, uma cobra cruzou o nosso caminho e a estrada virou um rio! Água na altura dos joelhos passava de um lado para o outro, juntando a estrada com o rio que a margeava, virou tudo uma coisa só. Seguimos marchando, tirando forças nem sei mais de onde. Chegamos ao PC3 e verificamos que só havia um caminhão para os barcos. "Se vocês não quiserem remar, vão ter que ir a pé", disse o homem do PC. Olhamos um para o outro... Dissemos ao mesmo tempo "... $%&@#, então vamos remar!". Escureceu. Colocamos o duck na água sem dó, na fé e na vontade. Neste momento, estávamos perto de chegar (só mais 2 horas). Remamos no breu corrigindo a rota que a correnteza teimava em desviar, muitas curvas no Rio Branco, correnteza transversal que saía do rio e entrava no bananal e voltava. Alcançamos a outra equipe e os passamos. Minha lanterna começou a piscar e apagar, ficava mais difícil enxergar pra que lado o rio fazia a curva. De repente, uma mangueira esticada de fora a fora na transversal do rio! "Cuidado!" Viramos matrix para desviar da maldita que acertou nossos pescoços e quase nos derrubou da embarcação. Continuamos remando e aportamos no PC4, remando um pedaço contra a correnteza que nos fez passar um pouco do ponto. Transição rápida para as bikes, pedalamos na chuva com aquela adrenalina de quem estava quase por terminar uma grande e dura jornada. Levamos 40min até avistarmos a igreja da praça central... 20h33min de domingo... Chegamos! Foram 30h33min de prova.
Recebemos as muito merecidas medalhas, terminando na 4ª colocação das duplas. Neste momento olhamos para a serra, e pensamos nas equipes que ainda estavam lá e passariam mais uma noite de chuva e frio...
Parabéns a todos os atletas que fizeram esta prova! Todos, sem exceção, completando ou não a prova, foram muito bravos e corajosos, usando de experiência, conhecimento, instinto, garra e força para sobreviverem a esta jornada.
Agradeço aos familiares e amigos pelo apoio e preocupação (quase matei alguns do coração!), ao pessoal da academia Daja em Santo André pela dedicação na minha preparação, aos treinos de remo do Vit (nos garantiram uma colocação) e em especial ao meu parceiro de equipe Zé Luiz.
Esta prova fez por nós o que muitos levam uma vida para ver...
Denis Luque
Equipe Voitto