Mas do que uma mera corrida, hoje observando as escoriações espalhadas pelos meus membros, parece que me envolvi em uma briga de torcida e sobrevivi a pauladas. Os pequenos espinhos que ainda perduram nas minhas mãos são as lembranças de uma corrida que ficará marcada para sempre na minha memória.
Este modelo de prova que nos faz pensar. Por que fazemos isso ? Por que amamos o esporte e o contato extremo com a natureza ? Por que precisamos da adrenalina para viver ? Até hoje fico pensando nas dificuldades, perigos e recompensas que nos propomos a viver nesse nosso esporte magnífico, arriscado e apaixonante.
A questão é: será que todos que se metem a varar a noite em uma serra poderosa e nada amigável estão cientes dos perigos e conseqüências ? Tem noção dos limites do corpo e da mente?
Como todo o esporte que cresce e atrai novos praticantes pelo fascínio que exerce é inevitável que tenhamos atletas de primeira viagem que nem sequer correram em uma trilha, que são atraídos pelo modismo ou para ensaboar os egos.
Como dizem os “mestres” dos esportes radicais. “Se você faz o que faz pelo ego, moda e não por amor sua motivação é errada”
A prova
Chauás. Itanhaém. 18km de remo. 25km de bike. 40Km TREKKING. 12Km remo. 13Km bike.
A equipe
Luciana, Marciones, Maurício e eu.
Particularmente eu estava meio zoado do Brasil Wild que havia acontecido 15 dias atrás. Fiquei as duas semanas reparando os danos e uma torção no tornozelo. O Marciones ficou gripado. A Lu passou mal do estômago e o Maurício chegou meio zoado de sono.
A largada da Chauás é sempre as 14:00 horas. Isso facilita as coisas. Podemos dormir melhor. Apesar de ficar aquela moleza pós almoço...
Largamos para um trecho de mar varando uma arrebentação de ondas com quase 1/2 metro. Bem divertido. O Lucas já havia me comprometido a sair surfando as ondas... E pra virar o duck nas ondas é fácil, fácil...
Responsabilidades a parte fomos nós em frente... E logo percebi que o meu camel back havia vazado e toda a água ido...por água abaixo
Começo de prova é sempre embolado. Conseguimos nos manter no pelotão da frente. Isso é bom.
Clipamos o duck da Lu e do Maurício para irmos juntos
Subindo o rio percebemos que nosso duck estava murchando consideravelmente. Tive que sentar no travesseiro...que também esvaziava....ê!!Beleza
O Maurício percebeu uma portagem bem legal que nos jogou duas posições pra cima. Chegamos no PC e Largamos o duck quase vazio, a esta altura. Fomos embalados nas bikes.
Essa hora comecei a me sentir um tanto estranho meio enjoado não conseguia pedalar com a força que eu queria. A Lu disse “Ozi, se tá abatido”.... O Mauricio clipou minha bike, o que me manteve no vácuo....Ainda bem. Aos poucos fui voltando.
Começamos o trekking trotando e nessa altura ia administrando a dor do tornozelo torcido que aos poucos foi sumindo....e desapareceu....milagres a parte considerei a atadura 3M a responsável pela melhora..segurou muito bem meu tornozelo.
Fomos bem, administrando água, comida e estratégia de navegação. Estávamos com dois navegadores (bons) e isso fez a diferença, facilita a vida de todos na equipe e tira a responsabilidade de um só.
Logo na primeira hora de trilha, tomei um rasteira danada de um tronco. Rasteira dupla. Hematoma duplo. As duas canelas zoadas. Maldita folha que escondia o tronco... Doeu muito....Daí pra frente nas 16 horas de trekking que se seguiram qualquer folha que encostasse doía, o vento mais forte doia...
Chegamos no 1º momento crucial da prova. Encontramos o Life Guards que batiam cabeça e começamos a bater nossas cabeças junto com as deles. Nessa hora apareceu a Selva, a Audax e logo em seguida a Paz na Mata.
Todos com as cabeça batidas, afinal a tempestade...Ah!!! A tempestade. Já havia começado a algumas horas antes e mudou tudo, trilha virou rio , rio virou corredeira e tome nadar para achar trilha ... nadar azimutando .... nada 10 metros glub glub ..tome trilha .... nada 20 metros glub glub tome trilha ... e assim foi ...
Nessa hora é preciso ter fé. E acreditar no Azimute. Os mapas do tio Lucas não mentem, porém na navegação não podemos acreditar em tudo o que vemos...
Chegamos ao rio com a força tarefa dos navegadores e audácia dos “vara mato”. Porém o riacho de águas claras e rasas logo se transformou em um rio nível 3 barrento e totalmente impossível de caminhar.
Tivemos que andar pelas margens, segurando em troncos podres, terra desbarrancada e rezando para as cobras que vimos rolar tempestade abaixo já tivessem fugido depois de ver aquele bando de lanternas vindo em sua direção. Quanto espinho Benza Deus!!!! Espinhos do tamanho de agulhas de acupuntura...pelo menos já cuida das dores pelo corpo. Acupuntura natural.
Em alguns trechos o mato acumulado entre troncos e folhagens criavam verdadeiras armadilhas. Tínhamos que apoiar os bastões de trekking para ver se o chão aonde íamos pisar iria ceder engolindo boa parte de nossas pernas.
Cometemos um pequeno erro coletivo que nos custou umas duas horas. Voltamos no prumo. O pior já havia passado.
Depois de escalar uma cachoeira de uns 8 metros conseguimos caminhar hora por dentro do rio, hora pela margem. ...Olha só os carrapatos nadando....
E assim fomos nós. Dispersando do grupo e voltando a competição, afinal nos unimos para sobreviver à prova. Tromba uns daqui, outros dali e logo....estávamos na 1º colocação. Não sei como, mas começamos a correr feito uns doidos...essa sensação é muito boa!!!
Logo a molecada do Life Guards se uniu a nós e fechamos juntos o 1º trecho do trekking , chegando na caixa de reabastecimento. Ai as pernas, pés e joelhos começaram a pegar. A descida da Serra estava infestada de cascavéis. A Lu passou por uma que armou o bote.. Esperando o próximo pra se defender... o próximo era eu...
Falei...não..não...volta pra toca, volta filhinha....” Nóis é Legal”
Os moleques abriram. Veio a Audax, veio a Selva....ficamos em 4º lugar....
E foi assim.
Finalizamos em um riacho corrido e divertido, sentados aliviando nossas pernas....
A bike final foi só um sopro.
Cruzamos a linha de chegada.
UFFAAA!!!
Quero agradece a toda a organização da Chauás pelo esforço de aumentar o nível do nosso esporte. E pela dedicação em resgatar as equipes que só foram aparecer na segunda feira a tarde...
Parabéns a todos que tiveram coragem de seguir em frente, mesmo diante do perrengue “master” que passamos.
Valeu!!!
Ozi
Equipe Senta a Púa.