EXTRA! EXTRA! EXTRA! Temporal EXTRA-tropical deixa Itanhaém (SP) em estado de atenção!
Com contrato renovado com São Pedro, o Lucas (organizador do Chauás) iniciou às 13h30 o briefing da prova, que mais tarde viraria notícia de televisão. As 14h do sábado, inicia a chuva estipulada em contrato, soa a famosa buzina Chauás e é dada a largada da prova. A categoria expedição (120 km) largaria correndo e a Summer (75 km) pedalando.
Nós Guaranis estávamos na expedição. Desta vez a equipe estava composta por Fidel, Vit, Marco e Lilian. Largamos correndo da praça Matriz em direção à praia, onde sairíamos remando no mar. O Marco e o Fidel largariam mais fortes para escolherem dois ducks para nós. Foram realmente fortes, chegando entre os primeiros na praia, mas acho que esqueceram da segunda parte do combinado e acabaram pegando dois ducks meio murchos. Remamos mar adentro em busca de um duck-bóia, que deveríamos contornar e seguir de volta ao continente. Como duck não tem âncora, ficou difícil seguir um azimute fixo e achar o duck, que parecia já estar na Praia Grande, de tão longe que tinha saída do azimute por causa do vento forte e da correnteza.
Na direção contrária, as equipes pareciam que estavam remando em busca de um barco pesqueiro, que seguia sentido Peruíbe. Acho que a adrenalina da largada fez com que as equipes esquecessem que a referência era um duck e não um barco. O Vit, que estava alagado por causa da bóia central murcha, e eu ficamos gritando para o outro bote. Queríamos avisar que estávamos vendo o duck-bóia. As equipes perceberam e começaram a voltar. Decidimos seguir na frente, demos a volta obrigatória no duck-bóia e pulamos para dentro dele. Trocamos de embarcação com o Thiago (Chauás) e seguimos com a equipe completa para a Praia do Sonho.
Em terra, assinamos o PC 1, mandei um beijinho para minha mãe e minha tia que estavam na torcida e voltamos para o mar. De volta à água remamos forte em meio a ondas fortes e muitas pedras. Tínhamos que entrar no canal do rio Negro e subir contra a correnteza.
Surfamos nas ondas em direção ao rio e começamos a remar contra a correnteza. A experiência do Vit (que além de amigo é nosso instrutor de remo) nos ajudou na leitura da correnteza. Remamos forte os 15 km, mesmo com o duck do Marco e do Fidel murcho. Mantivemos o visual das equipes da frente e saímos em quarto lugar no PC2. A essa altura a chuva estava forte e a serra ao fundo debaixo de nuvens negras. O Vit chegou a comentar que preferiria que chovesse tudo naquela hora, ao invés da chuva na trilha. Mal podíamos imaginar o estava por vir!
Na transição para a bike, tínhamos deixado uma sacola térmica com gelo, onde estavam nossas caramanholas carregadas de gatorate, malto e duas latas de Coca-cola. (quando deixamos a sacola, antes da largada, o Sol estava forte e o calor intenso. Tanto que deixamos nossas camisetas amarradas nas bikes, na expectativa de vestirmos uma roupa seca na saída do remo). Ensopados, tomamos o refrigerante, guardamos a roupa reserva encharcada, deixamos a sacola (obrigada Togumi!!!) e seguimos pedalando na estrada de areia.
A demora na transição e a lentidão no pedal por causa da areia molhada, fizeram com que fossemos ultrapassados por uma equipe. Já no asfalto, aumentamos o ritmo e em pouco tempo chegamos à transição para o tão esperado treking de 40 km, rumo à São Paulo.
A noite caindo e a chuva também, chegamos à entrada da trilha. A meta era sairmos da quota zero para 800 metros de altitude, tudo em mais ou menos 28 km de subida. Perdemos um tempinho num pequeno vara-mato até chegarmos à trilha.
Começou a subida pela trilha-cachoeira. A chuva estava tão forte, que a trilha tinha virado rio. Subimos em busca de um rio (de verdade), onde deveríamos andar pelo leito contra a correnteza. Com a chuva, o nível do rio subiu e várias corredeiras surgiram. Se tivéssemos que descer de duck, teria sido uma delícia, mas subir contra a correnteza e a pé não era uma boa idéia naquele momento. Optamos pelo vara-mato na paralela do rio, o que nos custou muito tempo. Já desanimados, atravessamos o rio em busca de uma cachoeira, que teríamos que desviar pela lateral. Ao atravessarmos o rio, encontramos duas duplas da Summer, já desanimados e abrigados debaixo do cobertor de emergência.
Logo em seguida apareceu um grupo da organização, entre eles o Pio (Chauás), que sempre surge do nada nas provas. Perguntamos pelos nossos amigos da Uirapuru e Goiabada Power e ele disse que deveriam estar na nossa frente. Também nos avisou que ele estava fazendo a varredura da trilha e que deveríamos ser a última equipe. Eles estavam subindo pela segunda vez a trilha e para trás de nós não tinham visto mais ninguém. O desânimo aumentou e além da clássica pergunta “O que estou fazendo aqui?”, eu me recordei de uma afirmação que sempre faço em todas as Chauás: “Nunca mais faço prova do Lucas!!!”.
Atravessamos o morro da cachoeira e começamos a andar/nadar pelo leito do rio. Apesar de estarmos de coletes salva-vidas, eu não queria continuar dentro do rio. O Marco e eu tentamos continuar pela paralela, mas o ritmo era muito lento. Voltamos para o rio, com uma sensação que misturava frustração e desânimo. O Pio estava se divertindo com a minha cara e eu louca para fuzilá-lo. Do mesmo jeito que ele aparecia ele sumia do nada.
Começou a amanhecer, quando do nada apareceu a Selva. Então não estávamos em último!!! Falei para o Márcio/Selva que na segunda-feira estaria cancelando minha inscrição de aluna Selva. Ele disse que nada disso, que eu iria continuar treinando. Nem respondi...
A Selva nos passou e continuamos dentro d’água, até a saída para um rio menor, onde estaria a saída para a próxima trilha. Neste trecho apareceram diversas outras equipes, inclusive as outras que estavam na nossa frente no último PC. Concluímos que, ao invés de estarmos em último quando o Pio apareceu, deveríamos estar em primeiro... Ai que ódio!!!
Já de dia (a previsão da organização era de que as equipes começariam a chegar no final da prova às 6hs da manhã de cominho) saímos do rio e entramos na trilha. As outras equipes também vieram e acabaram nos passando, enquanto paramos para navegar. Subindo, encontramos outras equipes da Summer, que tinham entrado horas antes de nós na trilha e ainda estavam ali. Algumas tinham se abrigado em um antigo forno de carvão.
A aglomeração de equipes, como sempre, atrapalhou a concentração da navegação. Todos estavam num vai e vem, em inúmeras trilhas que pareciam ter sumido do mapa. As coordenadas batiam, mas as vezes nada parecia estar certo. Numa das trilhas, discutimos a navegação com a Paz na Mata. Apesar das coordenadas estarem certas, a altitude da trilha não batia com o mapa. A Selva e outras duas equipes tinham optado por aquela trilha. Decidimos voltar um bom trecho. Conversamos novamente com a Paz na Mata. Eles decidiram voltar à trilha da Selva e nós decidimos voltar ainda mais sentido o rio, para termos certeza de onde estávamos. Perdemos umas três horas nessa indecisão. O desânimo voltou!
Paramos para comer, quando uma equipe começou a apitar para ver se alguém da organização aparecia para ajudar. Era a Saci Amarelo, que decidiu seguir com a gente. Lei de Marphy imperando, a trilha certa era a única que tínhamos decidido que era a errada: a que o Selva tinha seguido. A essa altura estávamos racionando comida.
Morro acima, agora em seis pessoas, voltamos à prova. Já quase na quota 800, exaustos, mas já esperançosos com a chegada à São Paulo, paramos novamente para comer. Sabíamos que estávamos perto da nossa caixa de reabastecimento e que então poderíamos esgotar nossa reserva da mochila. Os meninos da Saci, fortes fisicamente, acho que não contavam com tanto perrengue. Estavam inscritos para a prova de 45 km, mas foram transferidos para a de 75 km. Com bagagem para 45 km, estavam sem agasalho e acho que à tempos sem comida. Compartilhamos os suprimentos e voltamos à caminhada. Pouco tempo depois chegamos ao tão esperado PC6.
Fomos recebidos com alegria pela Satie (Chauás) e pelas pessoas do lugar. Já em São Paulo, estávamos em sétimo lugar. A Paz na Mata havia chegado àquele ponto pouco depois do meio-dia e nós acho que umas 16hs, do domingo. Comemos nosso macarrão, trocamos de roupa e reabastecemos a mochila. A Satie nos contou que Itanhaém estava em estado de atenção, por causa de uma tempestade extra-tropical que estava caindo. Ficamos preocupados com a família e amigos que tinham ficado no litoral, aguardando nosso retorno. Àquela altura todos já estavam preocupadíssimos conosco. O Vit tinha avisado à esposa que chegaríamos por volta das 6hs da manhã (ele só esqueceu de avisar o dia!!!), mas já era de tarde. Preocupado, procurou por um telefone, mas no lugar não havia sinal para celular, os rádios não funcionavam e o único telefone público estava quebrado.
De meias limpas e anorak sequinha, me despedi da Satie, da Saci Amarelo e das equipes desistentes que estavam lá aguardando o carro da organização para voltarem ao litoral paulista. Aproveitei para deixar um recado com a Satie para minha amiga Sandra/Uirapuru: “Quando a Sandra chegar você diz para ela continuar a prova, nem que seja para chegar na segunda-feira”.
De baixo de chuva e de uma neblina que me lembrava Gramado (RS), chegamos ao marco da divisa entre os municípios de Itanhaém e São Paulo. Começamos a parte mais divertida da prova: a descida para o litoral via esqui-bunda. A chuva deixou a trilha completamente escorregadia. Em vários trechos era impossível nos mantermos em pé. Então, fomos escorregando. Era muito engraçado ver aqueles marmanjos, escorregando feito crianças. O Fidel acompanhou pelo altímetro e pelo relógio nossa progressão: percorríamos 14 metros de altitude a cada 1 minuto. Rapidamente, tínhamos saído de 800 e passamos à quota 300, onde deveria haver uma bifurcação. No caminho encontramos uma dupla subindo de volta à São Paulo. Era a equipe Féllas, que não encontrou a bifurcação e resolveu voltar. Eles decidiram seguir com a gente. Tinham saído na quarta colocação do último PC, mas pretendiam desistir quando chegassem no PC seguinte. (Eu cheguei a brincar, dizendo que eles iriam completar a prova, nem que fossem puxados pelos cabelos. Coitados!!! Se tivessem voltado estariam sequinhos antes mesmo do que esperavam!)
Já escurecendo e, de novo, com a chuva, já não sabíamos o que era rio e o que era trilha. Azimutamos e começamos um vara-mato mais difícil do que o outro do rio. A descida era íngreme e a mata muito densa. O Vit, com aquela delicadeza toda, passou a ser chamado de Shrek e Taz – O diabo da Tasmânia. Ele derrubava tudo o que estava à frente: árvores, pedras, companheiros de equipe e sei mais lá o quê. O Fidel parecia que estava numa avenida, conseguia se locomover mais rápido que os outros, abrindo o mato, descendo e procurando por trilhas ou rios que pudessem nos ajudar a descer mais rápido. O Marco continuava concentrado na navegação e em me ajudar, pois minha head lamp tinha se afogado e não funcionava mais. E assim fomos os seis (três sem iluminação, pois as lanternas dos Féllas também tinham entrado em greve), mantendo a concentração e tentando progredir no percurso.
Andamos por alguns rios, na tentativa de chegar ao rio maior, que seria nossa referência no mapa. Infelizmente, as muitas cachoeiras desses rios atrasavam ainda mais nossa progressão. Tudo era muito complicado. Andar em rio cheio de cachoeiras e andar na mata fechada sem iluminação é muito difícil. Acho que nossa progressão deveria estar a 1km por hora, muito, muito lento mesmo.
Já era mais de 2hs da madrugada, quando chegamos à quota zero e encontramos nosso rio de referência. O rio estava cheio, com corredeiras constantes e a água já invadia as áreas plainas laterais. Claro que a chuva não parava!!! Tínhamos intervalos muito curtos sem que chovesse.
Por segurança, decidimos tentar margear o rio a fim de chegarmos à trilha. Isso atrasou ainda mais nossa chegada, pois o rio tinha centenas de curvas e nós mapeávamos todas. O cansaço bateu, o sono chegou e estava mais difícil navegar. Os meninos revezaram na navegação, mas o cansaço atrapalhava nas decisões. Por alguns momentos, parecia que íamos e vínhamos sem rumo. No escurinho do matagal, eu e o Fabiano/Féllas dormíamos em pé e andando. O companheiro de equipe dele, o George, ficou com a missão de nos manter acordados e andando. Os outros se revezavam, tentando iluminar o caminho para nós três.
Às 5h30 da madrugada resolvemos parar para dormir. Debaixo de chuva forte, forramos umas folhas largas no chão, sentamos perto um do outro para mantermos o calor do corpo e dormimos por cerca de 30 minutos. O Marco e o George tiveram dificuldade em pegar no sono. Os meninos do Féllas estavam sem agasalho e de bermuda. Fiquei morrendo de pena deles. Acho que era a segunda prova que participavam e ainda por cima uma Chauás... Perguntei porque não começaram com algo mais light. Corajosos e determinados, eles responderam que se era aprender tinha que ser na Chauás.
Acordamos com o Vit assustado, dizendo que o rio estava subindo e que precisávamos ir rápido para um lugar mais alto. Despertados pelo susto e já amanhecendo, continuamos nossa expedição. Chegamos a um descampado, de onde podíamos ver a serra que tínhamos descido. A trilha estaria perto. Passando o descampado, voltamos ao vara-mato, quando finalmente vimos o bananal. Esta era nossa próxima referência do mapa, significava que estávamos perto da trilha.
Alguns passos mais e chegamos a um trilho de trem, usado para transportar bananas. Comemoramos, nos reanimamos e seguimos pelo trilho, que sumia por muitas vezes debaixo d’água. Andamos um bom trecho com água na altura dos joelhos, por outros mais fundos ainda.
Um tempo depois saímos na tão esperada, sonhada, desejada e almejada estrada. Já era pouco mais de 9hs da segunda-feira, quando chegamos ao PC 7. Passamos um rádio para organização e pedimos para que avisassem meus pais que estávamos bem. Subimos no caminhão baú, deitamos sobre os ducks e dormimos na carona de volta ao Bar do Zé Pretinho. Ao chegar, fomos recepcionados pela minha família e pelo Thiago (Chauás), que tinham passado a madrugada à nossa procura. Duas outras equipes, continuariam na mata até o entardecer, quando o corpo de bombeiros os encontrou.
O resumo da ópera: Estamos bem, inteiros e felizes. Vencemos o desafio da prova, que era o treking de 40 km. Chegamos à conclusão que, assim como na vida, imprevistos acontecem e saber superá-los é a maior vitória que um ser humano pode conquistar. E nós soubemos! Soubemos superar todos os desafios, manter a cabeça no lugar, crescer como equipe, crescer como navegadores, ajudar outras equipes e o melhor: soubemos ainda mais o quanto nossas famílias e amigos nos amam. Obrigada a todos por isso!!! Pai e mãe, desculpem-me pelo susto e... por continuar querendo correr o Chauás!!!
Lilian Araujo
Equipe Guaranis