Equipe Paranaventura/Financeira Renault |
Eram aproximadamente 9 horas da manhã do dia 30/01/2003 quando nossa equipe, formada pelo Gilles Martinon, Fernando Marquete, Laércio J. Kazmierczak e Vanessa Cabrini , ganhou a BR116 saindo de Curitiba em direção a Iguape, litoral Sul de São Paulo palco da terceira etapa da EXPEDIÇÃO CHAUÁS – JUREIA, onde chegamos por volta das 11:30 da manhã. Equipamentos obrigatórios checados, e de posse dos mapas e das coordenadas que faltavam, tratamos de fazer a ultima refeição quente das próximas 45horas. Almoçamos uma macarronada num dos restaurantes ao lado da praça, de onde aconteceria a largada. Descobrimos também que a organização foi obrigada a fazer algumas alterações no roteiro da prova, visto que havia chovido muito na semana que antecedeu o evento.
Por volta das 14 horas, 28 equipes do PR, SC, SP, DF, GO, MG, RJ e RS se aglomeravam, atrás do pórtico, esperando pela largada da corrida, e quando passavam alguns minutos das 14 horas o Lucas, organizador na corrida, iniciou a contagem regressiva para o início da prova. A largada foi no melhor estilo LE MANS, com os competidores correndo por aproximadamente 100 metros até alcançarem as bikes e partirem para um pedal de aproximadamente 22km.
Na primeira perna de bike, sentimos os efeitos do sol e do pouco tempo para a digestão do “almoço”, pois apesar de conseguirmos abrir um pouco da maioria das equipes, não rendíamos o esperado, o Gilles estava lento, a Vanessa não se acertava em pedalar sem sapatilha, e eu com “náuseas”. Registramos o PC1 acredito que em 6 o lugar, posição que mantivemos até o PC2/AT. Avistamos os líderes colocando os ducks na água no exato momento em que passávamos a ponte sobre o Rio da Ribeira, que dava acesso ao PC2.
Começamos a remar, inicialmente pelas margens, mas notamos que estávamos lentos, pois algumas equipes se aproximavam rapidamente, saímos um pouco das margens e conseguimos render um pouco mais. Quase chegando ao PC3, notamos que as equipes que lideravam passaram um pouco do PC e estavam voltando, remamos direto ao PC e saímos da água em 4 o lugar, apenas 7 minutos atrás dos 3 primeiros colocados que saíram todos “embolados”.
Iniciamos o trekking, alternando pequenos trotes, até alcançarmos o rio, onde avistamos o pessoal da OSKALUNGA voltando pela trilha e optando em seguir pelo rio.
O Gilles ainda comentou que tínhamos a opção de seguir pelas linhas de alta tensão, só que como não existia nenhuma linha plotada na carta, acreditei que era puro palpite. Tentamos achar a trilha, sem sucesso, e decidimos também seguir pelo rio. O pessoal que estava no barco acompanhando a prova deve ter se divertido muito comigo e com o Fernando, pois com a correnteza contra, nadávamos e não conseguíamos sair do lugar, e logo começaram os princípios de cãimbras, e a alternativa foi seguir se agarrando pelos matos da margem. O Fernando ainda me deu uma ajuda enorme neste trecho. Saímos da água e tentamos achar a trilha, sem sucesso e começamos a varar mangue. Seguimos rasgando mato e espinhos por mais de 2 horas até conseguirmos sair daquele “inferno”. Chegamos no PC4, no Estirão do Miguel, em 11 o lugar, 1 h14 atrás dos lideres. Ficamos sabendo que a galera estava com dificuldades em passar pelo caminho rumo ao PC5, e quando nos preparávamos para seguir em frente, para a nossa surpresa, todas as equipes, com exceção da Narrobada e da Ecosystem, estavam retornando, dizendo que estava impossível de passar, pois a trilha estava toda submersa. Depois de uma rápida reunião entre o Lucas (organizador) e os capitães da equipes, ficou decidido que a prova seria neutralizada, e as equipes teriam que retornar caminhando12km até o PC2 onde teriam acesso à caixa de reabastecimento e aconteceria nova largada, agora de bike. A diferença de tempo do PC4 seria descontado no final.
Na volta ao PC2 conversamos com o pessoal da Xavantes, primeira equipe que chegou no PC4, e eles nos informaram que haviam seguido pelas linhas de alta tensão... Sem comentários, pedi desculpas aos Gilles por não termos seguido sua sugestão.
A cena no PC era dantesca, parecia um campo de refugiados, com “neguinho” para todo lado, se alimentando ou estirado no chão tentando dormir um pouco...
Com todas as equipes reunidas novamente a prova foi reiniciada, teríamos que seguir aproximadamente 35km pelo asfalto até a entrada da estrada que seria sinalizada por um fiscal da prova. Impressionante foi o ritmo que algumas equipes imprimiram depois da relargada, seguimos uns 20km num pelotão intermediário e na “roda” de outras equipes (desculpem galera, mas “faz parte...”.) até que resolvemos forçar nosso ritmo e tirar um pouco a diferença. No final da subida da serra, algumas equipes aproveitaram uma bica para um pequeno “pit stop” e nós aproveitamos para ganhar mais algumas posições.
Quando começamos a pedalar pela estrada de terra, notamos que não havia nenhuma marca de pneu de bike no barro, e começamos a acreditar que estávamos liderando a prova (liderando entre aspas, pois tínhamos 1h14 a ser somado no nosso tempo...).Seguimos pelas estradinhas entre o bananal e com inúmeras bifurcações, sendo que em uma delas levamos um “susto”, pois a Vanessa percebeu que estava sem o capacete, havia esquecido o famigerado uns 3km atrás quando parou para tirar a blusa. O Fernando foi o encarregado de retornar para recuperá-lo. O Gilles aproveitou o tempo para estudar melhor o mapa, e inclusive, obter algumas informações com alguns moradores. Atingimos o PC7 (virtual) e logo depois cometemos um erro crasso de navegação, e perdemos uns 20 minutos, pois descemos uns 2km pela estrada errada, e é claro, 2km de empurra bike morro acima para retornar ao caminho correto. No rumo certo, fizemos um baita “downhill” até sermos a primeira equipe a chegar em Pedro de Toledo, no PC8/AT e à nossa caixa de reabastecimento.
Enquanto fazíamos nossa transição, o Lucas (organizador) nos informou que a navegação entre os PC´s 9 e 10 seria delicada, e que existia apenas um ponto de passagem entre os vales, o resto era bambuzal. Iniciamos nosso trekking rumo ao PC9 (virtual). O Fernando havia levado R$10,00 para comprarmos uma “coca” no caminho, mas os botecos que achamos só vendiam cerveja tsss.....
Enfrentamos uma subida animal com sol forte no “gangote” e o Gilles começou a se “arrastar” e precisamos empurrá-lo morro acima, um perfeito trabalho em equipe. Incrível o visual na subida do morro. Depois de um pequeno descanso ao lado da placa do PC, encaramos a trilha que nos levaria ao PC10. Não demorou muito para que a trilha simplesmente sumisse da nossa frente, e começamos a árdua tarefa de varar mato novamente. Perdemos muito tempo, e ganhamos muitos arranhões nos braços, num tal de desce e sobe na tentativa de achar a trilha. Tinha muito bambu, e a maior preocupação do Gilles era de nos mantermos na altitude certa. Depois de muito vai e vem, achamos uma picada que acabava em uma árvore caída, cheguei a comentar que não poderia ser por ali, mas felizmente o Gilles não me deu ouvidos, subiu no tronco da famigerada, passou sobre ela e avisou contende que havia achado a passagem entre o bambuzal. A trilha depois do rio estava bem batida. Neste trecho nos deparamos com uma árvore fantástica, lamentamos a falta de uma máquina para fotografá-la. Seguimos a passos largos, mas a trilha novamente sumiu, e alternamos canyoning com varra mato até sairmos no PC10. Levamos mais de 5 horas para fazermos a travessia entre o PC 9 e o PC10. No final da corrida ficamos sabendo que fomos à única equipe a conseguir fazê-la.
Registramos o PC10/AT apenas 4 minutos atrás da equipe ENDORFINA-SP, mas fomos informados que eles haviam feito o trecho do PC9 ao 10 pela estrada, o que estava proibido pelo Race book.
Levamos quase 2 horas para fazermos os 3km de canyoning, um trecho super perigoso, fácil de escorregar nas pedras molhadas. Impressionante a drenagem e a aderência dos tênis da SALOMON .
No PC11 comentaram conosco que as equipes Narrobada-SC e Ecosystem-PR também haviam feito a travessia, e que estavam a menos de 1 hora atrás de nós. Bateu aquela incerteza, principalmente pelo tempo que seria acrescentado à nossa equipe devido à neutralização no PC4. Pegamos os remos e partimos rumo ao PC12. No início xingamos um monte por ter que carregá-los, depois até gostamos da idéia, pois nos servíamos deles como apoio para passarmos entre os barreiros. A trilha, apesar de navegação simples, era bem pesada. Neste trecho foi a vez do Fernando começar a se arrastar.
Chegamos ao PC12/AT ás 23:30h, novamente em primeiro lugar. Decidimos fazer uma parada de 30 minutos para tentar dormir um pouco. Mas com a quantidade enorme de pernilongos estava impossível, mesmo perto das fogueiras feitas pelo pessoal do PC.O único que conseguiu dormir um pouco foi o Fernando. Devido o complicado acesso ao PC/AT, nós tivemos que carregar os remos, e a organização levou os ducks vazios, e tínhamos ainda que enchê-los antes de iniciar a remada. Eram 00:15h quando começamos a remar, inicialmente por um rio bem estreito, e cheio de curvas, mais parecia um valetão, onde tínhamos que controlar rapidamente o duck para não se enfiar nas margens e passar pelo mato das beiradas. Depois ganhamos o Rio das Pedras, mas a coisa não aliviou, pois existe muita vegetação dentro do rio, e tínhamos que seguir por um canal bem estreito entre o mato, em momentos remávamos apenas no capim. Em alguns trechos a vegetação simplesmente se fechava, e tínhamos que abrir caminho entre os igarapés (lembro que botânica não é o meu forte...). Era a primeira vez que “varramos mato de duck”, e já estávamos ficando traumatizados com tanto vara mato.
Nesta etapa, a Vanessa começou a passar mal, se enrolou no cobertor de emergência e aproveitou para dormir enquanto o Fernando remava sozinho. Eu e o Gilles adotamos a mesma tática, enquanto eu dormia um pouco (cochilos de 5 minutos) ele remava sozinho, depois alternávamos. Quando a Vanessa se recuperou, e para o Fernando poder dormir um pouco, ele trocou de posição e de duck, com o Gilles, de forma que eu remasse enquanto o Fernando dormia. Mesmo com esses pequenos cochilos, chegamos a ter alucinações de tanto sono, pois dormimos no máximo 20 minutos cada, com exceção da Vanessa que conseguiu dormir um pouquinho mais.
Eram 6:30h da manhã quando avistamos as luzes do PC 13/AT e paramos de remar. Fomos recepcionados pelos Lucas que estava lá no PC. Trocamos algumas palavras sobre a prova e partimos para a última perna de trekking. Os últimos 3km fizemos trotando, sugestão do Gilles...Isso com mais de 40 horas de prova....
Eram 8 da manhã quando assinei o PC14/AT e pegamos as bikes rumo a chegada. Seguíamos num ritmo bom, até eu começar a escutar um barulho estranho, parecia que algo estava pegando na roda traseira de minha bike, e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o pneu traseiro estourou. Tudo foi muito rápido. Como o Gilles havia informado que só faltavam 5km comecei a pedalar com o pneu estourado mesmo, (nessa hora que se dane os aros...), mas logo ele corrigiu, para nosso desespero faltavam ainda 15km para a chegada. Foi aí que a Vanessa deu a brilhante idéia de utilizarmos a nota de R$10,00 (lembram dos barzinhos que não tinham coca???) como “manchão. E assim fizemos, trocamos a câmara de ar, fechamos o buraco do pneu com a nota de R$10,00, enchemos pouco o pneu e assim seguimos pedalando por mais 15km até a linha de chegada. Quando faltavam uns 800 metros para a chegada, e já avistávamos a Basílica foi a bike do Gilles que perdeu totalmente a tração, sendo necessário que o Fernando ainda o empurrasse até a chegada.
Finalizamos em primeiro lugar com o tempo de 43 horas e 20 minutos e ainda ficamos sabendo que fomos à única equipe a ficar na categoria EXTREME. O segundo lugar ficou com a equipe ENDORFINA-SP, seguidos pelos nossos amigos das equipes NARROBADA-SC e da ECOSYSTEM-PR. (obs – torcemos, e muito, por uma boa colocação deles).
Somando a pontuação da etapa anterior ainda conseguimos também o título do CIRCUITO CHAUÁS 2003/2004.
Lembro ainda que das quatro primeiros colocadas na prova, três são equipes da região Sul, espero que estes resultados sirvam para chamar um pouco mais a atenção para o nível das equipes, das provas e dos circuitos realizados na região sul, principalmente os da EXTREMAVENTURA-PR, SULBRASILIS-SC e PAZ NA TERRA SC.
Quero parabenizar todas as equipes que completaram a prova, e principalmente ao Lucas e todo o pessoal da organização da CHAUAS pela exigente prova e agradecer também a maneira gentil em que fomos tratados pelo Lucas e pela Noelli. VALEU GALERA.
Aproveito também para ressaltar o excelente desempenho, dedicação, determinação, espírito de equipe, bom humor e companheirismo dos atletas da equipe, Fernando, Gilles e Vanessa, e ainda agradecer ao patrocínio da FINANCERIA RENAULT e ao importante apoio da SALOMON , pela confiança depositada na nossa equipe, fundamental para esta conquista tão importante para nós.
Alguns momentos marcantes na prova:
O Fernando e a Vanessa tentando dormir ao lado da fogueira disputando o local com dois cachorros no PC do segundo duck...Pareciam mais dois “sem teto...”
As alucinações no segundo remo, era casa no meio do rio, a galera de pé no duck, PC .....
A quantidade de galhos, folhas, aranhas e outros bichos dentro do duck
As piadas durante a corrida tsss.... A do papa é cruel...Já a do 13 preto...
Os assuntos para tentarmos nos manter acordados...(primeira vez, lugar inusitado....tssssss.)
Eu roncando durante uma pequena pausa no vara mato entre o PC9 e o PC10.
Vara mangue, vara mato, vara bambu, vara pedra, vara água, vara tudo.....
Cobras, aranhas, jacaré, sapos e até cervo no meio do caminho.
O Gilles preciso na navegação.
Dormir 20 minutos em 43horas e 20 minutos de prova.
A cerveja apostada com o pessoal da XAVANTES, vamos cobrá-la....
Laércio J. Kazmierczak – Capitão PARANAVENTURA/FINANCEIRA RENAULT
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