Os outros membros da equipe eram: José Luiz (eu, capitão e navegador), o Roca (bom de leme e exímio nadador), e o Ivan (ótimo ciclista) que entrou no lugar do Fernando que foi acometido de pneumonia há duas semanas da prova.
A largada da corrida aconteceu às 14h de MTB. Achei que iríamos arrasar nessa etapa mas para minha surpresa todo mundo largou muito rápido e tivemos que pedalar muito para chegar nos Ducks em 5º lugar. Em algumas subidas o calor era tão forte e mesmo assim os corredores pedalavam que nem uns loucos, pensei comigo, muita gente vai quebrar nessa prova...
Remo não é nosso forte, muito menos da Adriana, mas mesmo assim fomos bem e terminamos essa etapa em 8º. O rio estava rápido e em menos de 2 horas começamos o trecking.
Resolvemos correr para tentar alcançar os ponteiros e deu certo, a trilha batia no rio e virava à direita mas não tinha saída. Quando chegamos no rio as equipes da frente estavam voltando e tivemos o prazer de entrar no rio em 1º. Não durou muito pois tínhamos que nadar contra uma correnteza muito forte e na ansiedade de escaparmos do rio fomos para a margem e entramos numa trilha falsa e em poucos minutos estávamos totalmente sozinhos no meio do mangue com direito a cobra e formigas. Sem desespero e conformado de estarmos fora da trilha tracei o Azimute e seguimos varando o mato até escutarmos vozes. Era a equipe 4extreme que havia perdido o mapa depois de uma ataque de abelhas! Não demorou muito para acharmos a trilha e fomos para o PC 6 juntos achando que estávamos na rabeira da competição, mas para nossa surpresa chegamos em 6º há 27 minutos do primeiro, naquele ponto a Xavantes do Rio. Lá foi muito engraçado pois era um vai e vem de equipes procurando a trilha e ninguém achava, até que o Lucas foi mostrar pra gente onde estava e nem ele achou. A trilha estava debaixo d'água.
Já era noite e decidiu-se atravessar o rio a nado e andar até o PC2 (12km) onde encontraríamos as bikes e a primeira caixa de apoio. Adoramos a mudança pois aumentaria a parte de bike em 30 km, teoricamente nosso forte.
Por volta das 4 da manhã tivemos a relargada, que seria uns 30 km de asfalto, um planão até a subida da Serra para então entrar num labirinto de sobes e desces em meio a um grande bananal, uns 50 km de terra. A Adriana me perguntou se iríamos na boa ou socaríamos. Eu respondi: - Vamos socar, é claro!
E socamos, saímos em pelotão e uma a uma as equipes foram ficando até que estávamos sozinhos. Que sensação gostosa! Mas não durou muito, na subida da Serra o Roca cansou e fomos ultrapassados por 3 ou 4 equipes. Equipes que iríamos cruzar muitas vezes no decorrer da corrida.
A navegação da MTB foi realmente muito difícil, cada errada valia uma parede de volta à bifurcação e assim fomos, amanheceu, o sol ficou forte e chegamos no PC 8 bem cansados, em 4º lugar próximos dos 2º e 3º, mas já há 1 hora da Paranaventura que estava em 1º. Nesse ponto a Adriana deu uma lição de raça pra gente. Ela havia sido mordida por algum inseto durante a bike e desenvolveu um reação alérgica muito importante, eu que sou médico fiquei assustado. Seus braço e perna esquerdas incharam muito, seu corpo ficou cheio de pápulas (reação de urticária) e ela mal conseguia abrir os olhos tamanho inchaço ao redor dos olhos e da boca. Ela sentia uns calafrios e se coçava toda. Ela me disse: - Zé, estou me sentindo muito mal. Perguntei se estava difícil para respirar e ela disse que não. Dei dois comprimidos de anti-histamínico para ela e pensei, ela vai desistir! Mas para minha surpresa, ela arrumou suas coisas e me perguntou: - Quanto tempo demora para fazer efeito o remédio? - Meia hora. Respondi. – Então vamos, estou pronta!
Fomos, mas se ela não melhorasse em meia hora eu não deixaria ela continuar pois entraríamos na mata e ficaríamos muito longe de qualquer ajuda. Para piorar estava um sol de rachar, uns 40 graus e muito úmido. Subimos 350 metros de altitude para alcançar o PC 9 virtual, forcei bastante o ritmo e passamos para 2º lugar. A Adriana melhorou e entramos na mata confiantes, cruzamos um rio bem agradável e subimos uma trilha que batia com o mapa e achamos que estávamos certos até que a trilha acabou numa moita muito alta. Voltamos e logo estávamos em 3 ou 4 equipes procurando a trilha. Estava muito cansado e resolvi voltar para o rio e descansar um pouco para raciocinar melhor. Paramos no rio, o Roca e o Ivan tiraram um cochilo e eu e a Adriana ficamos cuidando dos pés (cheio de bolhas) quando ela me perguntou se não podíamos dar a volta pela estrada e encontrar o PC 10 ao contrário. Estávamos sem o RACE book e nem imaginei que era proibido, achei a idéia fantástica, mesmo sabendo que iríamos enfrentar o sol forte do meio dia e que iríamos descer e subir tudo de novo. Decidi que valia o risco. Saímos para o trecking super curiosos para saber em que posição chegaríamos no PC 10 que era o início do canyoning, a parte mais linda e agradável da prova.
Que surpresa, chegamos em 1º. Isso mais o fato da água estar na temperatura ideal e o lugar ser absolutamente lindo, acabou com o nosso cansaço, mal começamos a descer e vimos a Paranaventura chegando, aumentamos o ritmo e descemos super rápidos o Canyon. Chegamos no PC 11 às 17 horas em 1º. Continuamos super animados. A próxima etapa seria um trecking até os Ducks onde teoricamente a única dificuldade seria achar o início da trilha. Daí pesou o cansaço, a falta de sono e a pressão de estar em 1º. Me confundi com o cálculo da distância e peguei a trilha errada, um lamaçal onde xingamos o Lucas até desconfiar que estávamos errados e voltarmos tudo. Essa trilha foi o lugar mais louco da corrida, eu estava com muito sono e arrasado psicologicamente por ter errado, felizmente o Ivan assumiu como líder e foi na frente. Eu dormia andando, acordava com os tropeços e sonhando, olhava em volta e alucinava absurdamente. Havia árvores incrivelmente altas e me senti como se estivesse numa floresta de Elfos.
Finalmente chegamos aos Ducks, por volta da meia noite, surpresos e felizes por estarmos ainda em 2º lugar há 1 hora do 1º. Enchemos os Ducks e fomos para o rio. Seriam uns 45minutos até o rio das Pedras e depois umas boas horas até o próximo PC. Achamos que o mato descrito pelo Lucas e indicado no mapa estaria nesse riozinho antes do Rio das Pedras e que o mesmo seria um rio largo onde poderíamos remar tranqüilamente. Doce ilusão! Era um matagal onde passávamos com os Ducks em espaços apertados cheio de espinhos, aranhas e mutucas. Remamos umas 3 horas, meio dormindo meio acordados, hora sonhando, hora alucinando até que eu me dei conta que havia passado muito tempo. Olhei dos lados e vi a sombra de umas montanhas, chequei o Azimute, olhei no mapa e me desesperei. Não havia montanhas no mapa e estávamos indo oeste quando deveríamos seguir sul. E agora? Será que tinha uma bifurcação lá trás? Estávamos num labirinto? Primeiro checamos a correnteza e continuávamos a descer o rio. Então fiquei olhando em volta encafifado com aquelas montanhas quanto bateu a razão: - É óbvio, não são montanhas, são árvores e estão acompanhando o rio, mas e a direção? Daí virou o Roca e falou. – E se esse rio já for o Rio das Pedras! Pronto, matada a charada, era o Rio das Pedras, que só viria a abrir e se tornar um rio largo e gostoso de remar bem mais a frente.
Finalmente amanheceu e aí acabou o sono, voltou o ânimo e remamos alegres, o rio de águas escuras era um verdadeiro espelho d'água e as próximas etapas foram bem fáceis, um trecking leve até as bikes e um último pedaço de asfalto sem subidas até a chegada às 11:15h..
Terminar uma prova dessas é um grande feito, uma sensação de poder e de grandeza, terminar em 2º enfrentando equipes de ponta de várias partes do Brasil, algumas profissionais, é absolutamente indescritível.
Agradeço ao Lucas a oportunidade de conhecer esse pedaço de Brasil intocado e nos proporcionar essa aventura maravilhosa e a Adriana por ter nos mostrado um pouco da força que existe em um campeão!